Não Nascemos Prontos
"Gente não nasce pronta e vai se gastando, Gente nasce não pronta e vai se fazendo" Mário Sérgio Cortella

Mais uma vez fui prara na rodoviária: uma viagem de quase 5 horas até Itaberaba (aguardem o Diário de Bordo). Como a viagem era durante o dia fiquei furiosa ao me lembrar que não havia sequer um livro. Tive que atacar a concorrência e fui à livraria dlocal para adquirir um livro, afinal eu precisava aproveitar o tempo que ia pssar no ônibus (provavelmente sem nem cochilar por causa do horário) para fazer algo de útil. Fiquei feliz ao me deparar com um Livro do Mário Sérgio Cortella, eu tinha assistido a uma palestra sua no Fórum de Rh muito, muito boa.
Lendo um resumo algo logo me chamou atenção. Era uma frase que dizia o seguinte: "Gente não nasce pronta e vai se gastando, Gente nasce não pronta e vai se fazendo" . Decidi imediatamente pela compra. Para minha surpresa antes de mesmo chegar em Feira de Santana (que fica acerca de 1h30 de Salvador) eu já tinha devorado o livro.
Uma leitura leve e deliciosa. Uma compilação de artigos do autor mexem com o leitor de forma a provacar diversas inquietações. Passei o resto da viagem tentando responder alguns daqueles questionamentos propostos por Mário e permaneci até a hora de dormir, já no Hotel.
Os temas são variados, apesar do autor os classifcar com filosóficos. A construção do ser, o tempo (de contra a favor), a educação, o conhecimento, a informação, o ócio, o dinheiro, a esperança e as escolhas fazem parte desse delicioso livro.
Fica a minha recomendação e um dos artigos para degustação:
Quem avisa amigo é...
Tristes tempos! Vivemos numa época de interesses recíprocos, atravessamos um período de pragmatismo, nos quais as regras da competitividade mortal e de uma base econômica implacável nos mecanismos da exclusão impõem valores gananciosos. Uma norma principal ganha corpo: será bom tudo o que for útil, será adequado tudo o que for lucrativo, será moralmente confortável tudo o que for vantajoso. O princípio central da convivência passa a ser o inesgotável “uma mão lava a outra”.
A amizade também não conseguiu escapar muito dessa avassaladora pressão; poucas são as relações interpessoais que fogem ao utilitarismo e ao cinismo das afetividades simuladas. Cada vez mais temos amizades fugazes, com data de validade restrita; as pessoas vão e vêm rapidamente, acumulando-se uma série de perdas sem que ganhos subjetivos se fortaleçam. Mais e mais conhece-se muita gente e sustenta-se com fragilidade o aprofundamento dessas relações. Coloca-se como orientação básica do “mundo dos negócios” (a invadir o tecido social) a necessidade de ampliar ao máximo o número de contatos, sem que, de fato, essas aproximações signifiquem uma intenção de permanência e dedicação. Usa-se com facilidade a palavra “amigo”, em vez de, honestamente, fazer valer as expressões “colega” ou “conhecido”.
Chega-se até mesmo a uma situação mais defensiva: aqueles e aquelas que recusam qualquer forma de envolvimento nas afeições e na camaradagem, supondo, com densa carga de razão, ser difícil separar o que é uma lealdade sincera e amiga do que é uma simpatia forjada e circunstancial. A própria idéia de confraternizar, isto é, de estar “entre fraternos” fica sutilmente obscurecida pela concepção de que é fundamental fazer “network” para poder estar sempre entre os emergentes sociais e laborais, em vez de afundar no destino dos meros sobreviventes.
Sem desejar produzir um recurso à nostalgia tola, é saudável lembrar: bons tempos aqueles nos quais se podia acreditar no que Aristóteles, já no século 4.º a. C., afirmava a Nicômano na “Ética”: “A amizade é uma alma com dois corpos”. Parece que o ideal aristotélico vem sendo superado por uma perspectiva muito bem expressa pelo eventualmente satírico filósofo francês Montesquieu: “A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes”.
É claro que continuam persistindo as amizades duradouras, aquelas em que, passados meses ou anos, se tem a sensação de que a distância temporal não valeu, de que a intimidade permanece viva e de que o apoio irrestrito prossegue incólume. Afinal, como refletia Jean Cocteau, sensível poeta e diretor de grandes clássicos do cinema francês, “a felicidade de um amigo deleita-nos, enriquece-nos, não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe”.
É por isso que Chamfort, em obra póstuma chamada “Pensamentos, Máximas e Anedotas” (publicada em 1795, pouco depois do seu suicídio em Paris), afirmava que “neste mundo temos três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco e os que nos odeiam”. A mesma idéia desponta no século seguinte, com a característica ironia irlandesa de Oscar Wilde: “Toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada”.
Ainda tem de valer o ditado italiano “Amicizia que cessa non fu mai vera”, isto é, em uma tradução mais livre, “amizade que acaba nunca principiou”...